Vida de Pai

Risco de vida para pais
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Renato Kaufmann

O mais certo seria dizer risco de morte. Risco de vida quem tem é espermatozóide.

Enfim, mandei as fotos do salto, todo orgulhoso ali em cima das nuvens.
Meu pai respondeu com um puxão de orelha: ''você não acha que a Lucia ainda é muito nova pra você se arriscar dessa forma''?

Como um bom filho, minha primeira reação foi rebater tudo:  é mais perigoso dirigir até o aeroporto que saltar de paraquedas e que nunca vai ter uma idade da Lucia em que eu vou dizer ''se eu morrer agora tudo bem, então já posso saltar''.

(Essa é a hora que você se dá conta que o avião foi embora e que, em vez de mochila com paraquedas, você colocou um maluco nas costas.)

Mas quanto mais passam os dias, mais parece que ele tem razão. A Lucia é mesmo muito nova pra ficar sem mim.

Aí fica a dúvida:
– Melhor evitar  riscos desnecessários?
– Esperar vinte anos?
– Ou tudo bem se for pra realizar um sonho?

Queria ouvir a opinião de vocês.
Podem  comentar aí embaixo.


Gosto de nuvem
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Renato Kaufmann

Olha, aventura mesmo é ter um filho.
Mas essa aqui chega perto, em segundo lugar.


Surdez Musical
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Renato Kaufmann

Vida de Pai: baterista

Ilustração: Eduardo Souzacampus

Eu adoro música. Infelizmente, até campainha desafina quando eu toco. Me faltam algumas coisas básicas, como coordenação motora, ritmo e a capacidade de diferenciar as notas musicais. Assim: quando eu canto do-ré-mi-fá, elas parecem diferentes umas das outras, por comparação. Agora, o conceito de que uma música toda possa ser em ''Si bemol'' ou ''Lá sustenido'' me escapa por completo.

Dó é uma sensação de pena. É quando a Lucia fala ''mas que peninha de galinha''. Ré é quando o carro anda lá pra trás até acertar uma parede. Mi é o som que o meu gato faz, o Lacan. Ele mia pela metade. Fá, sei lá, é a letra de Psycho Killers.  Sol obviamente é um anão amarelo com plasma quente entrelaçado com campos magnéticos. Lá é um lugar que não é aqui e portanto pode ser o Sol. Si é uma coisa, assim, autocentrada. E dó (não sei porque sempre repetem dó no final) é o que as pessoas sentem ao me ouvir cantar.

Menos a Lucia. Como eu faço lavagem cerebral desde pequena (leia-se cantar pra ela), ela não reclama que eu canto mal, apesar de muitas vezes se irritar com a minha escolha de músicas, ou com o fato que, sem lembrar direito da letra, eu acabo inventando um pouco. Ela fica irritada e me corrige: ''O galo não usa mocotó, paaaaaai''

Um ano atrás, ela ganhou uma bateria de presente. Não sei se é talento dela ou falta de discernimento minha, mas acho tudo de uma sonoridade ímpar. E, nas horas vagas, o prato da bateria serve outro tipo de refeições.


Queda Livre 2
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Renato Kaufmann

Ainda não desisti dessa ideia de saltar de paraquedas.
Se esse aqui for meu último post, é porque fui fatalmente vencido pela lei da gravidade.

Nesse caso:
– Digam pra Lucia que eu a amo muito
– Alguém adote meus gatos
– Últimas palavras: ''Juro que não tive medo. Por favor, ignorem minha cueca. Ela mente.''


Queda livre
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Renato Kaufmann

Vou aproveitar o feriado, que infelizmente vai ser sem a Lucinha, para realizar um sonho: saltar de paraquedas.

Contei pra minha mãe, ela disse “mas você tem uma filha pra criar!”. Tentei explicar que vou saltar com paraquedas, e não sem. Ela não gostou do comentário.

Falei pro meu amigo Tequila que ele deveria vir junto e usar um paraquedas especial – o “paraquedas de cabelo”. Ele não gostou da piada.

Espero que o tal do paraquedas abra normalmente. Vai saber que coisas esses dois falariam pro meu biógrafo.


Hora da história
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Renato Kaufmann

Vida de Pai - hora da história

Ilustração: Eduardo Souzacampus

Quando eu era criança, minha mãe contava muitas histórias pra gente.  Mas tinha um tipo de história que eu gostava mais que de todos os outros – as do Quinquin. Por alguma razão, eu me identificava com ele.

Em uma, o Quinquin tinha brigado com os irmãos. Em outra, ou outras, fez xixi na cama. Quinquin ia visitar a avó dele. E que coincidência que eu tivesse passado por aquilo há poucos dias. Uau. Eu e o Quinquin, tudo a ver.

Com a Maria, minha enteada, eu tinha uma versão disfarçada – eram histórias de piada. Se a galinha quisesse atravessar a rua, ela precisava enfrentar uma jornada do herói digna de Campbell, cheia de perigos e crescimento, desertos, coincidências… e mais desertos. Às vezes, ela dormia antes de todo mundo sair da areia. E tinham as piadas de louco, que davam um exercício quase dadaísta.

Minha mãe continuou a sua tradição com o Samuel, meu sobrinho. Um dia, a mãe do Quinquin apareceu e contou pra ele uma história. Uma história de Samuel. O menino arregalou o olho e ganhou um belo nó na cabeça, tentando descobrir quem era o sábio chinês e quem era a borboleta.

E eu, quando descobri que minha mãe contava histórias do Quinquin pra Lucia, de súbito me lembrei dele. Sabe aquela sensação de quando aquilo em que você não pensava há anos volta de repente à sua cabeça? E minha primeira reação foi: “ahhhh, eu também quero!”

Assim, reapareceu o Quinquin. Ele ganhou um triciclo. Fez arte na escola. Por conta da separação, ele tinha duas casas, “nossa, duas casas, que legal, hein Lucia” e ela de olhão arregalado querendo mais histórias. Semana passada, ele caiu da cama. Ela ficou surpresa e levantou a sobrancelha: “ahhh, eu também caí da cama”.

Talvez ele esteja com os dias contados, e a Lucia perceba o truque mais cedo que eu. Ela é muito esperta, enquanto eu mal desconfio de coisas como “um dia, o Quinquin não queria mais fazer a barba”.

“Então, o Quinquin escreveu um texto agradecendo a mãe dele por trazer um personagem tão querido para a nossa família.” Ei, espera aí!


Horário de verão 2
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Renato Kaufmann

Cheguei em casa, Lucia estava montando Legos, toda entretida. Sentei pra montar junto. Aí eu olho pra ela e digo, “Lucia, está faltando uma coisa”. “O que, paaaaai???” “Ora, está faltando o meu beijo!”. Ela olha pra mim e diz “Mas como você é esquecido, paaaai!”. E me estala um beijo na bochecha.

Eu ainda odeio o horário de verão, mas graças a ele eu chego em casa em dias de rodízio e ainda pego ela acordada. Isso me deixa tão feliz que no dia seguinte consigo dar uma de Poliana até com esse grande inimigo do meu sono.


O Sol já coidou, papai.
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Renato Kaufmann

As crianças querem falar certo. Elas são evolucionariamente programadas pra aprender a se comunicar, e um bebê aprende qualquer linguagem, seja chinês, hebraico, gaúcho e até a linguagem cheia de cliques sonoros dos bosquímanos do Kalahari.

Quando uma criança fala errado, não é fofo. Ela não disse aquilo para seu entretenimento – ao menos não da primeira vez. Ela está tentando aprender, e você, ao repetir a palavra errada e achando tudo de uma fofura ímpar, está atrapalhando.

Ah, quem estou enganando?
Criança falando errado é fofo pra caceta.

(A frase do título é o que a Lucia diz pra me tirar da cama nos horários mais esdrúxulos.)


Profissão: Pai
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Renato Kaufmann

Ilustração: Eduardo Souzacampus

Avaliação de currículo dos selecionados, checagem de referências e antecedentes, dinâmicas de grupo, testes, provas, exame de urina e mandar muito bem no olho no olho. Para virar pai (ou mãe), às vezes, é preciso passar por tudo isso. Outras vezes, basta um bom jantar, um vinho e esconder bem o currículo.

O trabalho não é fazer um filho, já que isso qualquer despreparado consegue. Não é à toa que dizem que pai é quem cria. Ser pai é como fazer faculdade de filosofia: é fácil de entrar, não termina nunca e você fica com mais dúvidas, e dívidas, do que quando entrou.

Seja planejada, seja uma enfartante surpresa, a paternidade só pega no tranco, com um monte de gente desabotoada empurrando, ou indo ladeira abaixo em ponto morto. Aí, põe a segunda marcha e pronto, foi. A gente pega tanto embalo que redefinimos a nossa identidade como pais de alguém. Oi, eu sou o pai da Lucia.

Na hora de reassumir as outras identidades, igualmente importantes, rola a maior culpa. Quem voltou a trabalhar depois da licença sabe bem o que é isso – culpa de estar longe, e até de sentir um pouco de alívio também.

E apesar do horário de trabalho ser péssimo e ir madrugada adentro, ter condições insalubres com aquelas fraldas atômicas, e o chefe ser meio infantil, é o melhor trabalho que você já teve.

Afinal, ele cresce a olhos vistos e você fica às vezes tão feliz que chega a ser piegas, a ponto de se ouvir falando de cada pequena conquista, cada palavra nova, cada sorriso… Nessa hora, todo cheio de ternura e ciscos no olho, não tem nunca uma boa alma pra dizer que você deveria ter parado o texto um parágrafo antes. Hmpf.


Halloween
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Renato Kaufmann

Li a notícia aqui no UOL: Criança que demonstra medo de parentes distantes deve ser respeitada. Faz todo sentido, a gente não precisa ficar forçando a barra quando um deles aparece no jantar:

– Mas papai, eu não gosto do Tio Aderbal.
– Tudo bem, filhinha, então deixe no prato e coma só as batatas.